O que é o cancro
O que é o cancro
Antes dos tipos e dos tratamentos: como nasce a doença, o que significam as palavras que vai ouvir, e o que se sabe sobre porque aparece
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Casos, mortes e risco: estimativas do GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS) para Portugal, ano de 2024. O Registo Oncológico Nacional, com dados observados, contabilizou 60.954 novos casos em 2022. A ordem das causas de morte é do INE, com dados de 2024.
O que é o cancro
O corpo é feito de células. Elas nascem, cumprem uma função e morrem, e outras nascem no lugar delas. Este ciclo repete-se milhares de milhões de vezes por dia e é controlado por instruções guardadas no ADN de cada célula.
O cancro começa quando essas instruções se estragam numa célula. Ela deixa de obedecer a duas ordens fundamentais: parar de se multiplicar e morrer quando está gasta. Em vez disso, divide-se sem travão e transmite o defeito às células que dela nascem.
Não acontece de uma vez. São precisas várias avarias, acumuladas ao longo de anos, para que uma célula normal se torne cancerosa. É por isso que a maioria dos cancros aparece em idades mais avançadas: houve mais tempo para os erros se juntarem.
Todos os dias surgem células com erros no ADN. Na esmagadora maioria das vezes, a própria célula repara o defeito ou destrói-se, e o sistema imunitário elimina as que escapam.
Um cancro é o caso raro em que essas barreiras falham todas.
Não é uma doença. São mais de cem
Dizer “cancro” é como dizer “infeção”: aponta um mecanismo, não uma doença concreta. Um cancro da mama e uma leucemia são células que se multiplicam sem controlo, e quase nada mais. Crescem a ritmos diferentes, tratam-se de maneiras diferentes e têm desfechos diferentes.
É por isso que os números gerais dizem tão pouco sobre um caso concreto, e que a pergunta “qual é a taxa de sobrevivência do cancro?” não tem resposta útil. A resposta depende do tipo, do subtipo, da extensão e da pessoa.
Dois grandes grupos, com nomes que vai ouvir:
- Tumores sólidos: formam uma massa num órgão: mama, pulmão, cólon, próstata, pele. São a maioria.
- Cancros do sangue: leucemias, linfomas e mieloma. Nascem nas células do sangue ou do sistema linfático e muitas vezes não formam um caroço palpável.
Benigno e maligno: a diferença que muda tudo
Nem todos os tumores são cancro. Tumor quer dizer apenas massa, inchaço, crescimento anormal.
| Tumor benigno | Tumor maligno (cancro) |
|---|---|
| Cresce devagar e mantém-se no lugar | Invade os tecidos à volta |
| Tem contorno definido, muitas vezes uma cápsula | Tem contornos irregulares, infiltra |
| Não se espalha para outros órgãos | Pode espalhar-se à distância |
| Retirado, costuma resolver-se | Pode voltar mesmo depois de retirado |
Um lipoma, um fibroadenoma da mama, um pólipo do intestino, um nódulo da tiroide: a maioria destes é benigna. Alguns exigem vigilância, outros retiram-se por incomodarem, e há um pequeno grupo — certos pólipos do cólon, por exemplo — que pode transformar-se em cancro com o tempo. É essa a razão de ser dos rastreios.
Muitas biópsias são feitas para excluir cancro, e muitas acabam por não o confirmar. Que lhe tenham pedido uma não significa que o médico já sabe e não diz: significa que a única forma de ter a certeza é olhar para as células ao microscópio.
Como um cancro se espalha
É esta capacidade que define a doença. Nos tumores sólidos, acontece por três caminhos:
- Invasão local: o tumor cresce para os tecidos vizinhos, como raízes.
- Via linfática: células soltam-se e viajam pelos vasos linfáticos até aos gânglios mais próximos. É por isso que, numa cirurgia, se examinam os gânglios da região.
- Via sanguínea: células entram na corrente sanguínea e instalam-se noutro órgão.
Metástase: a palavra que mais assusta
Uma metástase é um tumor formado à distância por células vindas do tumor original.
Há aqui um ponto que quase ninguém explica e que muda a forma de perceber o tratamento: uma metástase mantém a identidade do cancro de origem. Um cancro da mama que se instala no osso continua a ser cancro da mama, e trata-se com terapias da mama, não com terapias do osso. Ao microscópio, aquelas células são células da mama.
Os locais mais comuns são o osso, o fígado, o pulmão e o cérebro, e variam consoante o tumor de origem.
Nos cancros do sangue — leucemias, linfomas e mieloma — a lógica é diferente: as células doentes circulam desde o início, ou nascem em vários pontos do sistema linfático ao mesmo tempo. Por isso não se fala de “espalhar” da mesma maneira, e o estadiamento segue regras próprias.
São palavras que muita gente ouve como sinónimos, e não são. Vários cancros em fase metastática tratam-se hoje durante anos, com a doença controlada e qualidade de vida, mais perto de uma doença crónica do que do que se imaginava há vinte anos.
Isto não vale para todos os tipos nem para todas as pessoas, e nenhuma página consegue dizer o que vale para si. Mas se a palavra “metastático” apareceu no seu relatório, vale a pena perguntar à sua equipa o que significa no seu caso antes de concluir seja o que for.
Estadio: quanto se espalhou
O estadio descreve a extensão da doença no momento do diagnóstico. É um dos principais fatores que orientam o tratamento: ao lado do subtipo, dos marcadores moleculares, do grau e do estado geral de saúde.
O sistema mais usado chama-se TNM, e resume três coisas:
- T (tumor): o tamanho e a profundidade do tumor original.
- N (nódulos), se há gânglios linfáticos afetados, e quantos.
- M (metástases), se há doença noutros órgãos.
Destes três valores sai um estadio de I a IV. Em traços muito gerais: I é doença pequena e localizada; II e III são doença maior ou com gânglios envolvidos; IV significa metástases à distância.
Há ainda o estadio 0, ou carcinoma in situ: células anormais que ainda não ultrapassaram a camada onde nasceram, por isso não invadem os tecidos à volta nem se espalham. Conforme o órgão, os médicos chamam-lhe cancro não invasivo ou lesão pré-cancerosa. É a fase com melhores resultados, e trata-se para impedir que evolua para um cancro invasivo.
O mesmo estadio pode ter significados diferentes em cancros diferentes. Um estadio III de um tipo pode ser mais favorável do que um estadio II de outro.
E o estadio é apenas um dos fatores. O subtipo biológico, os marcadores moleculares, a velocidade de crescimento e o estado geral de saúde entram todos na decisão. Peça à sua equipa que lhe explique o seu estadio no contexto do seu tipo de cancro.
Grau: com que aspeto se parecem as células
Enquanto o estadio diz quanto se espalhou, o grau diz quão diferentes do normal estão as células ao microscópio.
- Grau baixo
