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O que é o cancro

O que é o cancro

Antes dos tipos e dos tratamentos: como nasce a doença, o que significam as palavras que vai ouvir, e o que se sabe sobre porque aparece

Atualizado em outubro de 2026 · Baseado em ESMO, NCI, IARC/OMS, DGS e GLOBOCAN 2024

Nesta página
  1. O que é o cancro
  2. Não é uma doença, são mais de cem
  3. Benigno e maligno
  4. Como se espalha
  5. Estadio
  6. Grau
  7. Porque é que aparece
  8. É hereditário?
  9. Não é contagioso
  10. Depois do diagnóstico
  11. Perguntas para a consulta
  12. Por onde seguir
  13. Fontes
69.439novos casos por anonuma população de 10,4 milhões de pessoas
33.590mortes por anoa segunda causa de morte no país, depois das doenças do coração e da circulação
28em cada 100 pessoasdesenvolvem um cancro antes dos 75 anos
>50%dos diagnósticosacontecem depois dos 65 anos

Casos, mortes e risco: estimativas do GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS) para Portugal, ano de 2024. O Registo Oncológico Nacional, com dados observados, contabilizou 60.954 novos casos em 2022. A ordem das causas de morte é do INE, com dados de 2024.

O que é o cancro

O corpo é feito de células. Elas nascem, cumprem uma função e morrem, e outras nascem no lugar delas. Este ciclo repete-se milhares de milhões de vezes por dia e é controlado por instruções guardadas no ADN de cada célula.

O cancro começa quando essas instruções se estragam numa célula. Ela deixa de obedecer a duas ordens fundamentais: parar de se multiplicar e morrer quando está gasta. Em vez disso, divide-se sem travão e transmite o defeito às células que dela nascem.

Não acontece de uma vez. São precisas várias avarias, acumuladas ao longo de anos, para que uma célula normal se torne cancerosa. É por isso que a maioria dos cancros aparece em idades mais avançadas: houve mais tempo para os erros se juntarem.

O corpo tem defesas, e elas funcionam quase sempre

Todos os dias surgem células com erros no ADN. Na esmagadora maioria das vezes, a própria célula repara o defeito ou destrói-se, e o sistema imunitário elimina as que escapam.

Um cancro é o caso raro em que essas barreiras falham todas.

Não é uma doença. São mais de cem

Dizer “cancro” é como dizer “infeção”: aponta um mecanismo, não uma doença concreta. Um cancro da mama e uma leucemia são células que se multiplicam sem controlo, e quase nada mais. Crescem a ritmos diferentes, tratam-se de maneiras diferentes e têm desfechos diferentes.

É por isso que os números gerais dizem tão pouco sobre um caso concreto, e que a pergunta “qual é a taxa de sobrevivência do cancro?” não tem resposta útil. A resposta depende do tipo, do subtipo, da extensão e da pessoa.

Cólon e retoCólon e reto: 10.537 novos casos por ano10.537MamaMama: 9.100 novos casos por ano9.100PróstataPróstata: 7.677 novos casos por ano7.677PulmãoPulmão: 6.148 novos casos por ano6.148EstômagoEstômago: 3.930 novos casos por ano3.930BexigaBexiga: 3.602 novos casos por ano3.602PâncreasPâncreas: 2.191 novos casos por ano2.191FígadoFígado: 1.541 novos casos por ano1.541RimRim: 1.180 novos casos por ano1.180EsófagoEsófago: 716 novos casos por ano716Outros 21 tiposOutros 21 tipos: 22.817 novos casos por ano22.817
Novos casos por ano, por tipo de cancro. Os dez mais frequentes representam cerca de dois terços dos diagnósticos; os restantes 21 tipos cobertos nos guias somam o resto. Estimativas do GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS) para Portugal.

Dois grandes grupos, com nomes que vai ouvir:

  • Tumores sólidos: formam uma massa num órgão: mama, pulmão, cólon, próstata, pele. São a maioria.
  • Cancros do sangue: leucemias, linfomas e mieloma. Nascem nas células do sangue ou do sistema linfático e muitas vezes não formam um caroço palpável.

Benigno e maligno: a diferença que muda tudo

Nem todos os tumores são cancro. Tumor quer dizer apenas massa, inchaço, crescimento anormal.

Tumor benignoTumor maligno (cancro)
Cresce devagar e mantém-se no lugarInvade os tecidos à volta
Tem contorno definido, muitas vezes uma cápsulaTem contornos irregulares, infiltra
Não se espalha para outros órgãosPode espalhar-se à distância
Retirado, costuma resolver-sePode voltar mesmo depois de retirado

Um lipoma, um fibroadenoma da mama, um pólipo do intestino, um nódulo da tiroide: a maioria destes é benigna. Alguns exigem vigilância, outros retiram-se por incomodarem, e há um pequeno grupo — certos pólipos do cólon, por exemplo — que pode transformar-se em cancro com o tempo. É essa a razão de ser dos rastreios.

Uma biópsia não é uma sentença

Muitas biópsias são feitas para excluir cancro, e muitas acabam por não o confirmar. Que lhe tenham pedido uma não significa que o médico já sabe e não diz: significa que a única forma de ter a certeza é olhar para as células ao microscópio.

Como um cancro se espalha

É esta capacidade que define a doença. Nos tumores sólidos, acontece por três caminhos:

  • Invasão local: o tumor cresce para os tecidos vizinhos, como raízes.
  • Via linfática: células soltam-se e viajam pelos vasos linfáticos até aos gânglios mais próximos. É por isso que, numa cirurgia, se examinam os gânglios da região.
  • Via sanguínea: células entram na corrente sanguínea e instalam-se noutro órgão.

Metástase: a palavra que mais assusta

Uma metástase é um tumor formado à distância por células vindas do tumor original.

Há aqui um ponto que quase ninguém explica e que muda a forma de perceber o tratamento: uma metástase mantém a identidade do cancro de origem. Um cancro da mama que se instala no osso continua a ser cancro da mama, e trata-se com terapias da mama, não com terapias do osso. Ao microscópio, aquelas células são células da mama.

Os locais mais comuns são o osso, o fígado, o pulmão e o cérebro, e variam consoante o tumor de origem.

Nos cancros do sangue — leucemias, linfomas e mieloma — a lógica é diferente: as células doentes circulam desde o início, ou nascem em vários pontos do sistema linfático ao mesmo tempo. Por isso não se fala de “espalhar” da mesma maneira, e o estadiamento segue regras próprias.

Metastático não é o mesmo que terminal

São palavras que muita gente ouve como sinónimos, e não são. Vários cancros em fase metastática tratam-se hoje durante anos, com a doença controlada e qualidade de vida, mais perto de uma doença crónica do que do que se imaginava há vinte anos.

Isto não vale para todos os tipos nem para todas as pessoas, e nenhuma página consegue dizer o que vale para si. Mas se a palavra “metastático” apareceu no seu relatório, vale a pena perguntar à sua equipa o que significa no seu caso antes de concluir seja o que for.

Estadio: quanto se espalhou

O estadio descreve a extensão da doença no momento do diagnóstico. É um dos principais fatores que orientam o tratamento: ao lado do subtipo, dos marcadores moleculares, do grau e do estado geral de saúde.

O sistema mais usado chama-se TNM, e resume três coisas:

  • T (tumor): o tamanho e a profundidade do tumor original.
  • N (nódulos), se há gânglios linfáticos afetados, e quantos.
  • M (metástases), se há doença noutros órgãos.

Destes três valores sai um estadio de I a IV. Em traços muito gerais: I é doença pequena e localizada; II e III são doença maior ou com gânglios envolvidos; IV significa metástases à distância.

Há ainda o estadio 0, ou carcinoma in situ: células anormais que ainda não ultrapassaram a camada onde nasceram, por isso não invadem os tecidos à volta nem se espalham. Conforme o órgão, os médicos chamam-lhe cancro não invasivo ou lesão pré-cancerosa. É a fase com melhores resultados, e trata-se para impedir que evolua para um cancro invasivo.

O que os números do estadio não dizem

O mesmo estadio pode ter significados diferentes em cancros diferentes. Um estadio III de um tipo pode ser mais favorável do que um estadio II de outro.

E o estadio é apenas um dos fatores. O subtipo biológico, os marcadores moleculares, a velocidade de crescimento e o estado geral de saúde entram todos na decisão. Peça à sua equipa que lhe explique o seu estadio no contexto do seu tipo de cancro.

Grau: com que aspeto se parecem as células

Enquanto o estadio diz quanto se espalhou, o grau diz quão diferentes do normal estão as células ao microscópio.

  • Grau baixo