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O que é o cancro

O que é o cancro

Antes dos tipos e dos tratamentos: como nasce a doença, o que significam as palavras que vai ouvir, e o que se sabe sobre porque aparece

Atualizado em agosto de 2026 · Baseado em ESMO, NCI, IARC/OMS, DGS e GLOBOCAN 2024

Nesta página
  1. O que é o cancro
  2. Não é uma doença, são mais de cem
  3. Benigno e maligno
  4. Como se espalha
  5. Estadio
  6. Grau
  7. Porque é que aparece
  8. É hereditário?
  9. Não é contagioso
  10. Depois do diagnóstico
  11. Perguntas para a consulta
  12. Por onde seguir
  13. Fontes
69.439novos casos por anonuma população de 10,4 milhões de pessoas
33.590mortes por anoa segunda causa de morte no país, depois das doenças cardiovasculares
28em cada 100 pessoasdesenvolvem um cancro antes dos 75 anos
>50%dos diagnósticosacontecem depois dos 65 anos

Estimativas do GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS) para Portugal, ano de 2024. O Registo Oncológico Nacional, com dados observados, contabilizou 60.954 novos casos de cancro em Portugal em 2022.

O que é o cancro

O corpo é feito de células. Elas nascem, cumprem uma função e morrem, e outras nascem no lugar delas. Este ciclo repete-se milhares de milhões de vezes por dia e é controlado por instruções guardadas no ADN de cada célula.

O cancro começa quando essas instruções se estragam numa célula. Ela deixa de obedecer a duas ordens fundamentais: parar de se multiplicar e morrer quando está gasta. Em vez disso, divide-se sem travão e transmite o defeito às células que dela nascem.

Não acontece de uma vez. São precisas várias avarias, acumuladas ao longo de anos, para que uma célula normal se torne cancerosa. É por isso que a maioria dos cancros aparece em idades mais avançadas: houve mais tempo para os erros se juntarem.

O corpo tem defesas, e elas funcionam quase sempre

Todos os dias surgem células com erros no ADN. Na esmagadora maioria das vezes, a própria célula repara o defeito ou destrói-se, e o sistema imunitário elimina as que escapam.

Um cancro é o caso raro em que essas barreiras falham todas.

Não é uma doença. São mais de cem

Dizer “cancro” é como dizer “infeção”: aponta um mecanismo, não uma doença concreta. Um cancro da mama e uma leucemia são células que se multiplicam sem controlo, e quase nada mais. Crescem a ritmos diferentes, tratam-se de maneiras diferentes e têm desfechos diferentes.

É por isso que os números gerais dizem tão pouco sobre um caso concreto, e que a pergunta “qual é a taxa de sobrevivência do cancro?” não tem resposta útil. A resposta depende do tipo, do subtipo, da extensão e da pessoa.

Cólon e retoCólon e reto: 10.537 novos casos por ano10.537MamaMama: 9.100 novos casos por ano9.100PróstataPróstata: 7.677 novos casos por ano7.677PulmãoPulmão: 6.148 novos casos por ano6.148EstômagoEstômago: 3.930 novos casos por ano3.930BexigaBexiga: 3.602 novos casos por ano3.602PâncreasPâncreas: 2.191 novos casos por ano2.191FígadoFígado: 1.541 novos casos por ano1.541RimRim: 1.180 novos casos por ano1.180EsófagoEsófago: 716 novos casos por ano716Outros 21 tiposOutros 21 tipos: 22.817 novos casos por ano22.817
Novos casos por ano, por tipo de cancro. Os dez mais frequentes representam cerca de dois terços dos diagnósticos; os restantes 21 tipos cobertos nos guias somam o resto. Estimativas do GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS) para Portugal.

Dois grandes grupos, com nomes que vai ouvir:

  • Tumores sólidos: formam uma massa num órgão: mama, pulmão, cólon, próstata, pele. São a maioria.
  • Cancros do sangue: leucemias, linfomas e mieloma. Nascem nas células do sangue ou do sistema linfático e muitas vezes não formam um caroço palpável.

Benigno e maligno: a diferença que muda tudo

Nem todos os tumores são cancro. Tumor quer dizer apenas massa, inchaço, crescimento anormal.

Tumor benignoTumor maligno (cancro)
Cresce devagar e mantém-se no lugarInvade os tecidos à volta
Tem contorno definido, muitas vezes uma cápsulaTem contornos irregulares, infiltra
Não se espalha para outros órgãosPode espalhar-se à distância
Retirado, costuma resolver-sePode voltar mesmo depois de retirado

Um lipoma, um fibroadenoma da mama, um pólipo do intestino, um nódulo da tiroide: a maioria destes é benigna. Alguns exigem vigilância, outros retiram-se por incomodarem, e há um pequeno grupo — certos pólipos do cólon, por exemplo — que pode transformar-se em cancro com o tempo. É essa a razão de ser dos rastreios.

Uma biópsia não é uma sentença

Muitas biópsias são feitas para excluir cancro, e muitas acabam por não o confirmar. Que lhe tenham pedido uma não significa que o médico já sabe e não diz: significa que a única forma de ter a certeza é olhar para as células ao microscópio.

Como um cancro se espalha

É esta capacidade que define a doença. Nos tumores sólidos, acontece por três caminhos:

  • Invasão local: o tumor cresce para os tecidos vizinhos, como raízes.
  • Via linfática: células soltam-se e viajam pelos vasos linfáticos até aos gânglios mais próximos. É por isso que, numa cirurgia, se examinam os gânglios da região.
  • Via sanguínea: células entram na corrente sanguínea e instalam-se noutro órgão.

Metástase: a palavra que mais assusta

Uma metástase é um tumor formado à distância por células vindas do tumor original.

Há aqui um ponto que quase ninguém explica e que muda a forma de perceber o tratamento: uma metástase mantém a identidade do cancro de origem. Um cancro da mama que se instala no osso continua a ser cancro da mama, e trata-se com terapias da mama, não com terapias do osso. Ao microscópio, aquelas células são células da mama.

Os locais mais comuns são o osso, o fígado, o pulmão e o cérebro, e variam consoante o tumor de origem.

Nos cancros do sangue — leucemias, linfomas e mieloma — a lógica é diferente: as células doentes circulam desde o início, ou nascem em vários pontos do sistema linfático ao mesmo tempo. Por isso não se fala de “espalhar” da mesma maneira, e o estadiamento segue regras próprias.

Metastático não é o mesmo que terminal

São palavras que muita gente ouve como sinónimos, e não são. Vários cancros em fase metastática tratam-se hoje durante anos, com a doença controlada e qualidade de vida, mais perto de uma doença crónica do que do que se imaginava há vinte anos.

Isto não vale para todos os tipos nem para todas as pessoas, e nenhuma página consegue dizer o que vale para si. Mas se a palavra “metastático” apareceu no seu relatório, vale a pena perguntar à sua equipa o que significa no seu caso antes de concluir seja o que for.

Estadio: quanto se espalhou

O estadio descreve a extensão da doença no momento do diagnóstico. É um dos principais fatores que orientam o tratamento: ao lado do subtipo, dos marcadores moleculares, do grau e do estado geral de saúde.

O sistema mais usado chama-se TNM, e resume três coisas:

  • T (tumor): o tamanho e a profundidade do tumor original.
  • N (nódulos), se há gânglios linfáticos afetados, e quantos.
  • M (metástases), se há doença noutros órgãos.

Destes três valores sai um estadio de I a IV. Em traços muito gerais: I é doença pequena e localizada; II e III são doença maior ou com gânglios envolvidos; IV significa metástases à distância.

Há ainda o estadio 0, ou carcinoma in situ: células anormais que ainda não atravessaram a primeira barreira. Não é bem um cancro, é o que o precede, e trata-se com intenção de o evitar.

O que os números do estadio não dizem

O mesmo estadio pode ter significados diferentes em cancros diferentes. Um estadio III de um tipo pode ser mais favorável do que um estadio II de outro.

E o estadio é apenas um dos fatores. O subtipo biológico, os marcadores moleculares, a velocidade de crescimento e o estado geral de saúde entram todos na decisão. Peça à sua equipa que lhe explique o seu estadio no contexto do seu tipo de cancro.

Grau: com que aspeto se parecem as células

Enquanto o estadio diz quanto se espalhou, o grau diz quão diferentes do normal estão as células ao microscópio.

  • Grau baixo: as células ainda se parecem com as do tecido de origem. Tendem a crescer devagar.
  • Grau alto: as células perderam a semelhança com o tecido original. Tendem a crescer e a espalhar-se mais depressa.

Alguns cancros têm sistemas próprios de graduação, com nomes que encontrará no relatório: o Gleason e o grau ISUP na próstata, o Breslow no melanoma, o grau de Nottingham na mama.

Porque é que aparece

Esta é a pergunta que quase toda a gente faz, e a resposta honesta desilude: na maioria dos casos não se consegue apontar uma causa.

O que se sabe é que o risco sobe com a combinação de vários fatores:

  • Idade: de longe o mais importante. Mais anos, mais divisões celulares, mais oportunidades de erro.
  • Tabaco: o fator evitável com maior peso. Associa-se a cancros do pulmão, bexiga, rim, pâncreas, esófago, cabeça e pescoço, e outros.
  • Álcool, sem limiar seguro estabelecido. Associa-se a cancros da boca, faringe, laringe, esófago, fígado, cólon e mama.
  • Excesso de peso e sedentarismo.
  • Infeções: HPV, hepatites B e C, Helicobacter pylori, VIH. Várias destas são preveníveis ou tratáveis.
  • Radiação ultravioleta: sol e solários, nos cancros da pele.
  • Exposições profissionais: amianto, benzeno, poeiras de madeira, entre outras.
  • Genética herdada: explica 5 a 10% dos casos.
  • Acaso: parte dos erros de cópia do ADN acontece sem causa externa identificável.
Uma pessoa não tem culpa do seu cancro

Um fator de risco aumenta a probabilidade; não determina o desfecho. Há fumadores que nunca desenvolvem cancro do pulmão e há pessoas que nunca fumaram e desenvolvem.

Procurar o que se fez de errado é das primeiras reações ao diagnóstico, e é também uma das mais dolorosas e menos úteis. Na maioria dos casos não há resposta, porque não há uma causa única.

O que não causa cancro

Circula muita coisa por desmentir, e a desinformação sobre o cancro tem um custo real: leva pessoas a mudar de tratamento com base em nada. Não há prova de que causem cancro:

  • Desodorizantes, soutiens ou telemóveis.
  • Micro-ondas, ou alimentos aquecidos nele.
  • Adoçantes nas quantidades usadas na alimentação.
  • Uma pancada ou um traumatismo. Pode chamar a atenção para um tumor que já lá estava, mas não o cria.

É hereditário?

Na maioria dos casos, não. Cerca de 5 a 10% dos cancros associam-se a uma alteração genética herdada de um dos progenitores. Os restantes 90 a 95% surgem de alterações adquiridas ao longo da vida, que não se transmitem aos filhos.

Ter um familiar com cancro é comum, a doença é frequente, e não significa por si só um risco herdado. O que faz levantar a hipótese é um padrão:

  • Vários familiares próximos com o mesmo cancro, ou com cancros relacionados (mama e ovário; cólon e endométrio).
  • Diagnósticos em idades invulgarmente jovens.
  • Cancro nos dois lados de um órgão par, ou mais do que um cancro na mesma pessoa.
  • Um cancro raro para o sexo, como cancro da mama num homem.

Se reconhece este padrão na sua família, existe em Portugal consulta de risco familiar nos centros oncológicos e em vários hospitais do SNS, com aconselhamento genético antes e depois de qualquer teste. Fale com o seu médico de família ou com o seu oncologista para ser referenciado.

O cancro não se apanha de outra pessoa

Não é contagioso. Não passa por contacto, por partilhar a casa, os talheres ou a cama, por um beijo ou por cuidar de alguém.

Há uma distinção que vale a pena guardar: alguns vírus e bactérias que aumentam o risco de cancro são transmissíveis: o HPV, as hepatites B e C, o Helicobacter pylori. Transmite-se o agente, não o cancro. E é justamente por isso que a vacina contra o HPV e o tratamento da hepatite previnem cancros.

O que costuma acontecer depois do diagnóstico

O percurso varia com o tipo de cancro, mas tem uma espinha comum:

  • Confirmação: quase sempre uma biópsia. É a análise das células que dá o diagnóstico definitivo, o subtipo e o grau.
  • Estadiamento: exames de imagem (TC, ressonância, PET) para saber a extensão.
  • Decisão em equipa: o caso é discutido numa reunião de vários especialistas, a que se chama consulta de grupo ou reunião multidisciplinar. Não é um médico sozinho a decidir.
  • Proposta de tratamento: apresentada e explicada. Pode e deve fazer perguntas antes de aceitar.
  • Tratamento e seguimento.
Entre a suspeita e o plano passam semanas, e é normal

A espera pelos resultados é uma das partes mais duras, e é frequente sentir que se está a perder tempo precioso.

Em muitos cancros, os dias ou semanas necessários para completar o diagnóstico e o estadiamento não comprometem o resultado: servem para que a decisão seja tomada com a informação toda, e um tratamento escolhido depressa e sem saber o subtipo pode ser o errado. Mas a urgência varia com o tipo de cancro e com a situação clínica: há casos em que o tempo conta, e a equipa identifica-os e trata-os como tal. Se lhe parecer que algo está parado, pergunte.

Perguntas para levar à consulta

Ninguém se lembra do que quer perguntar no momento. Escrever antes ajuda, e levar alguém consigo ajuda mais:

  • Que tipo e subtipo de cancro é o meu, com o nome exato?
  • Em que estadio está, e o que significa isso no meu caso?
  • O objetivo do tratamento é curar, controlar ou aliviar sintomas?
  • Que opções existem, e porque me propõem esta?
  • Que efeitos secundários devo esperar, e o que se faz para os reduzir?
  • Isto afeta a fertilidade? (A perguntar antes de começar, se for relevante para si.)
  • Com quem falo se aparecer alguma coisa entre as consultas?

Por onde seguir

Tipos de cancro

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Perguntas e respostas

É hereditário? Vou perder o cabelo? Posso trabalhar? As perguntas que se fazem seja qual for o diagnóstico. Ver

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Cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias dirigidas: como funcionam e o que esperar. Ver tratamentos

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O que são ensaios clínicos, quem pode participar e onde encontrar os que decorrem em Portugal. Ver investigação

Viver com cancro

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Cuidadores e família

Para quem acompanha: o que fazer, o que dizer, e como não se perder pelo caminho. Ver

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Baixa médica, atestado multiuso, taxas moderadoras e apoios sociais. Ver

Fontes

Normas e guidelines
  • ESMO — Clinical Practice Guidelines, princípios gerais de diagnóstico e estadiamento.
  • UICC — TNM Classification of Malignant Tumours, 9.ª edição.
  • NCI (National Cancer Institute, EUA) — What Is Cancer e Cancer Staging.
  • Direção-Geral da Saúde, normas de orientação clínica em oncologia.
Dados
  • GLOBOCAN 2024 (IARC/OMS), estimativas para Portugal, ano de 2024. Publicado em julho de 2026.
  • Registo Oncológico Nacional (RON), dados observados; último relatório referente a 2022.
Fatores de risco
  • IARC Monographs: classificação de agentes cancerígenos para o ser humano.
  • World Cancer Research Fund / AICR — Diet, Nutrition, Physical Activity and Cancer.
Este guia tem fins informativos e educativos e não substitui a consulta com o seu médico. As decisões sobre o seu caso dependem de fatores que só a sua equipa clínica conhece. Em caso de dúvida ou sintoma novo, contacte o seu médico ou o SNS 24: 808 24 24 24. Em emergência, ligue 112.
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